• Raul Tabajara

Desenhando olhos com a Teoria dos Vítreos


(nota: Essa texto foi Originalmente publicado na Revista Profissional Publish #99 em 2008 e fico feliz em re-publicá-lo sem nenhuma alteração e ele ainda estar super atual)


A primeira coisa que pensamos quando vamos desenhar um objeto de vidro é “o vidro é transparente”. Então abrimos o Photoshop, criamos um novo Layer e desenhamos o objeto. Quando o desenho está pronto nossa reação automática é simplesmente diminuir opacidade do layer para 50%. Olhamos então para o resultado e dizemos com certa tristeza “puxa, isso não parece muito com um vidro...”


Claro, o vidro refrata a luz, como poderíamos ter esquecido disso? Então com auxilio da ferramenta Liquify começamos a distorcer a imagem que está no fundo atrás do objeto. Para ajudar a sensação de volumetria, criamos mais um layer e pintamos as luzes de um lado, a sombra do outro e pronto! Mesmo com a volumetria perfeita e a distorção do fundo, deu errado de novo! (imagem b)

Falta algo... E esse algo é a aplicação da Teoria dos Vítreos (imagem c), uma das técnicas do Chiaroscuro, observada e desenvolvida pelos antigos Pintores Renascentistas.


A Volumetria dos Vidros

É fácil perceber a dinâmica da luz em objetos sólidos comuns: No local onde a luz acerta o objeto ele fica mais claro, enquanto seu lado oposto fica mais escuro. Mas, mesmo parecendo loucura, essa lógica é inversa quando falamos de objetos vítreos (gotas d água, gelatina, olhos, vidro ou plástico transparente):


Note na imagem (d) o percurso da luz sobre o objeto sólido. A luz incide sobre o objeto e se espalha pela superfície, clareando-o. Ainda nele, as luzes que incidem no chão, retornam gerando a contraluz. E, o ponto de brilho, conhecido como Brilho Especular, acontece quando o objeto não consegue absorver certa quantidade de luz e a rebate na mesma freqüência que recebeu – normalmente ele surge em objetos lisos, molhados ou encerados.

Na imagem (e), um objeto Vítreo, o percurso da luz é bem diferente. Uma luz tênue não acende a superfície do objeto. Pelo contrário. A luz atravessa a superfície, percorrendo seu interior e acendendo somente a parte de dentro/atrás do objeto. Ou seja, o local onde a luz incide no objeto é a parte mais escura.

Portanto, ao desenhar um objeto vítreo, não se esqueça:

  1. Mesmo o objeto mais transparente escurecerá ou colorizará a imagem do fundo.

  2. A refração da luz gerará distorções. Note na imagem (c) que a distorção das bordas do objeto é mais acentuada, contornando-o levemente.

  3. Onde a luz incide sobre o objeto é a área mais escura. No centro dessa área deve haver um brilho especular.

  4. O lado oposto ao da luz principal acenderá e clareará o objeto por dentro. Esse fenômeno aliado à refração pode alterar levemente sua cor. Um vermelho pode virar um magenta, um verde pode virar um amarelo, não havendo um exato critério de seleção de cor para isso. Faça testes.

  5. Deve haver reflexões em volta do objeto. O chão sempre aparecerá refletido nas áreas debaixo do objeto. No exemplo (e) a bola de vidro reflete o branco do chão.

A Janela da Alma

Em um desenho de retrato os olhos são as partes do desenho que se deve tomar maior cuidado. É para eles que toda a atenção do observador vai. Portanto não deixe aplicar corretamente a anatomia e a teoria das cores, em especial a aplicação correta da teoria dos vítreos.


  • f. Comece o desenho do olho com duas conchas invertidas.

  • g. Desenhe uma linha diagonal onde a parte superior deve estar para o lado do nariz. Essa parte é que ditará a primeira onda dos olhos. Ela deve ser maior que a onda oposta, abaixo. Desenhe no canto o canal lacrimal.

  • h. A íris é coberta por uma pequena película vítrea. Ela que dá a sensação de profundidade nos olhos. Desenhe o diagrama do caminho da luz.

  • i. Apenas com chapados identifique as cores da ilustração. Dê preferência a cores mais escuras, isso ajudará na percepção de luz e sombra.

  • j. Em retratos é possível observar a grossura das pálpebras. Elas gerarão sombras no branco dos olhos.

  • k. Use um pincel suave ou o Smudge Tool para esfumaçar o desenho. Aproveite para diminuir o tamanho do pincel e dar mais detalhes ao desenho. Você sabia que Leonardo D´Vince após criar corretamente as luzes da pintura passava mais de 10 camadas de verniz de madeira sobre a tela quase fresca? O verniz reagia com a tinta a óleo, borrando a sensação de pincelada e ganhando um gradiente limpo e esfumaçado. Essa técnica ficou conhecida como Sfumato em Tela. Mesmo não usando uma tablet, D´Vinci havia inventado o Blur!

O Conceito Aplicado à Fotografia

Vamos deixar de falar de pintura e vamos falar de psicologia, mais precisamente da Psicodinâmica das Cores? Para isso responda a seguinte pergunta: Quantas vezes por dia você fica em um ambiente cuja luz venha dos lados e não de cima? Praticamente nenhuma, certo?


O Sol está em cima, as lâmpadas estão em cima e uma luz que venha dos lados mais agridem nossos olhos do que nos fazem ver melhor. É por isso que o Bebê da primeira imagem parece estar com um olhar bizarro/medonho. É raro na natureza encontrarmos uma fonte de luz frontal. E esse posicionamento de luz, criado pelas fotos com flash, nos gera uma resposta psicológica de ataque ou fobia.

Além disso uma fotografia cujo flash é frontal/lateral nos altera a beleza natural da volumetria vítrea: A luz forte do flash acende a superfície do objeto vítreo, deixando-o completamente transparente. Acertar essa volumetria com conhecimentos de pintura digital, como na correção abaixo, é um toque a mais no tratamento avançado de retratos..


Gostou? Se inscreva aqui no Blog, deixe seu comentário que mais tutoriais, making offs e artigos chegarão ao seu email!


0 visualização